sábado, 8 de maio de 2010

...

-Diga alguma coisa
-O que quer que eu diga?

Eu me encolhi com seu distanciamento.

-Diga que me perdoa.

Isso trouxe uma chama de vida em seu rosto - uma chama de raiva.

-Perdoar você? Pelo quê?
-Se eu tivesse sido mais cuidadosa, nada teria acontecido.

O TEMPO PASSA. MESMO QUANDO ISSO PARECE IMPOSSÍVEL. Mesmo quando cada batida do ponteiro dos segundos doí como sangue pulsando sob um hematoma. Passa de modo inconstante, com guinadas estranhas e calmarias arrastadas, mas passa. Até para mim.

-

Por mais que lutasse para não pensar nele, eu não lutava para esquecê-lo. Eu me preocupava - tarde da noite, quando a exaustão da privação de sono penetrava em minhas defesas - que tudo desaparecesse. Que minha mente fosse uma peneira e eu um dia não conseguisse me lembrar da cor exata de seus olhos, da sensação de sua pela fria ou da textura de sua voz. Eu podia não pensar naquilo, mas queria me lembrar de tudo.
Porque só havia uma coisa que eu precisava acreditar para poder viver - eu precisava saber que ele existira. Era só. Todo o restante eu podia suportar. Desde que ele tivesse existido.

(...)

Deitei na cama alguns minutos depois, resignada enquanto a dor finalmente resolvia aparecer.

(...)

E, no entanto, achei que eu podia sobreviver. Eu estava alerta, sentia a dor - a perda dolorosa que se irradiava de meu peito, provocando ondas arrasadoras de dor pelos membros e pela cabeça -, mas era administrável. Eu podia sobreviver a isso. Não parecia que a dor tivesse diminuido com o tempo; na verdade, eu é que ficara forte o bastante para suportá-la.